Na natureza selvagem ou quase isso

por Sal e Sol

Capa da edição argentina com a foto da contracapa que me encantou

Há umas três ou quatro semanas vi nos cadernos Comida (Folha de S. Paulo) e Paladar (O Estado de São Paulo) notícias sobre o lançamento do livro Sete Fogos, de Francis Mallmann (famoso chef argentino, estrelado e muito reconhecido em toda América Latina). A foto divulgação usada nas matérias de ambos os jornais realmente me chamou atenção. Pra dizer a verdade me encantou. Aquele homem de botas, paletó, descabelado no contraluz, alimentando a fumaça, rodeado por fogo, carne e frutas automaticamente me fez pensar em relação e aproximação. Pois é. A foto que vi (reproduzida aqui) e a culinária desenvolvida por Mallmann parecem retratar um estilo de vida e uma relação com a comida. Relação que parece ser extraordinária e distinta, quando deveria ser muito mais natural do que o trajeto comumente praticado por todos em qualquer restaurante: Vallet, espera/nome na lista, aperitivo, entradas particionadas em três mil frações, refeições magicamente empilhadas até quase alcançar os lustres, bla bla bla, até a conta milionária e absurda chegar à mesa, como as comumente praticadas numa cidade como São Paulo.

Enfim, com o livro em casa desde domingo tenho folheado e refolheado, lido e relido e, sobretudo, pensado sobre como a gente se distanciou de uma das coisas mais básicas do ser vivo, o instinto de sobrevivência e de preservação através da alimentação. Nada contra miojos, negrescos, hot pockets, estou falando de transformar alimentos simples, em comida simples, de forma simples (simples não significa isento de esforço e dedicação). É sobre carne, legumes, frutas, sal e fogo, principalmente fogo, que Francis Mallmann fala em seu livro. São sete deles: Churrasqueira; chapa; infiernillo; forno de barro; rescaldo; asador e caldeirão. E receitas de entradas; carne bovina; cordeiro, porco e frango; peixe e frutos do mar;  vegetais; comidas leves e saladas; sobremesas; pães e receitas básicas. Tudo muito bem distribuído na companhia de fotos dos pratos, de lugares, da família, da imersão em uma comida em contato com o meio ambiente.

Além de pisar na lua, inventar o automóvel e extrair petroléo das profundezas do oceano, o homem conseguiu, há muito tempo atrás, uma de suas maiores proezas para a permanência de sua espécie: “domou” o fogo tão enigmático e que parece tão inatingível hoje em dia. Do livro tiro receitas que sem dúvida serão sucesso nos almoços de família, mas com entusiasmo aproveito a sugestão de Mallmann de aprender a lidar com o fogo novamente, redescobrir essa chama e buscar uma culinária atenta ao alimento puro e simples. Além, claro, da vontade imensa de ter uma casa na beira de um lado maravilhoso, poltronas em baixo de uma linda árvore e o fogo acesso pra aquecer e pra alimentar.

Sete Fogos será o meu batismo carne e de fogo, com certeza.

Ah, vale dizer que o livro é maravilhoso e que não sou só eu que estou dizendo isso. Publicado em 2009 foi reimpresso quatro vezes em antes de completar um ano de vida, tamanho o sucesso de Seven Fires (título original da obra). Foi o livro mais vendido de culinária na grelha, latino-americana e internacional nas grandes livrarias do mundo. Foi finalista de prêmios gastronômicos e ganhou o Prêmio de Melhor Livro de Churrasco do Mundo, do Gourmand Cookbook Award.

Sete Fogos, Churrasco ao Estilo Argentino

Francis Mallmann com Peter Kaminsky

Fotografias de: Santiago Soto Monllor, Jason Kernick e Kaso Lowe

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