5 km

por Sal e Sol

5 km. 3 meses de treino. Mudanças no corpo e principalmente na cabeça. Aqui estou eu escrevendo de novo, um pedaço do livro que me meti a escrever. Um livro sobre corrida, sobre como eu cheguei (isso quando eu tiver chegado) aos mágicos 42.195 da Maratona.

eu com cara de quem não dormiu de ansiedade

Sempre quis correr, porque achava bonito pessoas correndo, achava bonitos os corpos dos corredores e sobretudo o controle que se precisa ter para correr por tempos maiores. Depois que adotamos o Nico, nosso vira-lata lindo de morrer, percebemos a necessidade de sair e gastar a energia do peludo. Assim, Felipe e Nico começaram a ir para o parque dar umas voltas e um pouco depois eu integrei o grupo. Eu, Felipe e Nico, uma equipe pequena, mas muito competente.

Às 6 da manhã quando o alarme marimba do celular toca em alto e bom som, o primeiro a ficar feliz com a notícia é o Nico que pula como um cachorro kamikaze em cima das nossas cabeças, de rabinho abanando, feliz da vida para ir correr. Assim foi por três meses. Nesses três meses, faltei a apenas 1 treino em 54 programados. Correr é o meu mais novo vício, minha obrigação mais agradável, assim como comer, escovar os dentes ou dormir. Necessária a vida, pelo menos a minha, a corrida tornou-se, também, minha fonte diversão mesmo quando não estou correndo. Cheguei a correr quase 6 km um dia desses, mas só me convenci de que conseguiria terminar o desafio a que me propus ontem, na minha primeira prova de rua. Uma corrida só para mulheres (pareceu mais amistoso começar assim) apenas 5 km de distância (para mim).

A sensação de ir lá e participar de uma competição, minha primeira em toda a vida soava como se eu já estivesse indo correr uma maratona. Meu programa de treinos, criado pelo treinador noivo corredor, incluiu 4 dias de corrida, sendo 2 mais intensos, 1 leve para recuperação e 1 para aumentar o tempo, mesmo que apenas no trote lento (que é tudo o que eu consigo). Nas últimas semanas meu coração e pulmão não pareciam mais que partiriam ao meio ou parariam subitamente, como eu pensei que aconteceria no começo, mas freqüentemente senti o joelho, o ilíaco, a dorsal – não necessariamente nessa mesma ordem-, enfim o esqueleto também fez seus comentários.

Eu e o meu trajeto

A noite de sábado até o tão esperado domingo foi só ansiedade. Parecia véspera de prova de vestibular. Não dormi, dei cochilos rápidos, intercalados com a luz do celular iluminando o quarto todo para checar se estava ou não perdendo a hora, sonhos malucos de pessoas roubando meu número de peito, eu me perdendo em um circuito micro de 5 quilômetros mesmo rodeada por um tsunami de mulheres, boca seca, pés doendo, falta de ar, de tudo um pouco que possa parecer terrível para uma primeira grande prova de uma iniciante.

Circuito Vênus, eis a corrida a qual me inscrevi quando ainda não tinha nem certeza de conseguir correr 3 km. Fui corajosa, mas preocupada em não andar em hipótese nenhuma. Eu tinha que ir lá e correr. Correr rápido ou devagar, mas correr. Busquei o kit com todas as coisas necessárias a minha identificação no sábado e daí pra frente chequei e re-chequei com tudo em cima da mesa da sala grampos para prender número de peito, pulseiras de tempo de largada, chip de cronometragem, a bateria do ipod, a bateria do sportsband Nike+, shorts, top, elástico de cabelo, meu amado mizuno, bananinha para o café da manhã e o trajeto, que eu desenhava mentalmente lembrando da volta de reconhecimento que o Felipe me levou para dar no local, na terça-feira vazia de carnaval.

Pode parecer meio patético tanta cerimônia para uma corrida tão sossegada assim, mas eu concentrei tanta energia em fazer isso, que me parecia um evento extraordinário. Eu sei que tenho 27 anos, já. Quando comecei a escrever esse “livro” eu ainda tinha 26. Sei que não serei uma atleta de verdade ou largarei com a elite em dia algum da vida. Sei que nunca irei subir em um pódio. Sei que não vou ganhar a São Silvestre, nem a Meia, nem a Maratona de lugar nenhum do mundo. Sei. Sei de tudo isso e de mais um monte de coisas. Mas sei, também, que a gente cuida do que a gente gosta, por isso dei tanta importância a essa corrida. Sei que vou continuar correndo 4 ou mais dias na semana, curtindo muito correr por esporte, treinando para chegar cada vez mais longe e mais rápido. Enfim…

Eu e a minha medalha de participação!

40 minutos esse foi o tempo que imaginei ser necessário para correr os 5 k quando me inscrevi. A largada foi animada com direito a aquecimento para todas, fotos dos apaixonados que assistiam de camarote à saída de todas as meninas, Sol e calor. Passar pelo pórtico de largada levou um tempinho, afinal deviam ser umas 6 mil mulheres prontas para se desafiar por ali. Em uns dois ou três minutos eu já estava correndo em ritmo leve para o que costumo fazer no parque Villa-Lobos. Mais uns dois ou três e o meu ritmo estava no ponto pra mim, só me restava desviar de algumas meninas em ritmo mais devagar ou até mesmo daquelas que estavam caminhando. Dessas coisas não posso reclamar, afinal é uma prova com espírito leve e divertido. Tudo pode, mas eu (EU) só pensava em correr, não ser atropelada por uma multidão ensandecida de mulheres super corredoras, cruzar a linha de chegada e terminar a prova sem caminhar nem mesmo um passo.

Foi isso que eu fiz, para a minha própria surpresa. Corri e corri bem, corri sem ficar esbaforida, sem pensar em desistir. Corri até chegar no quilometro 4 e começar a ver o portão do Jockey Club de São Paulo. Corri até encontrar com Felipe na reta final e ele como um doido fotografando tudo e furando o cordão de isolamento que separava corredores e produção.Corri até entrar naquele espaço incrível e ver pessoas cruzando a linha de chegada. Corri com o noivo por alguns metros, além dos quilometros todos que compartilhamos nas segundas, quartas, sextas e sábados. Corri com ele até ele quase ser capturado por seguranças do Jockey. Ele sorrindo e eu caindo na risada. Corri mais e mais rápido e me imaginei como uma daquelas corredoras com pernas gigantes ganhando uma grande prova e sendo televisionadas para o mundo todo. Corri, sorri, terminei, ganhei um beijinho do Felipe, noivo, treinador e torcedor maluco, e ganhei minha medalha para guardar de recordação! (pena que o Nico não estava lá para correr com a gente)

Meus primeiros 5 km. 28min47seg. Eu nem acreditei!”

Longa Distância é o livro que eu estou escrevendo contando minhas peripécias no mundo da corrida até o dia em que eu correr a minha primeira maratona. Por que não, né?!