O que cabe em 50 minutos de corrida

por Sal e Sol

No meu super plano mirabolante de correr uma (pelo menos uma) maratona, muito quilometros ficam no meio do caminho. Na sequência de distâncias progressivas para chegar ao meu primeiro e último grande plano de 2012 (que é correr a São Silvestre) fiz 4km, 5 km, 8 km e mesmo tendo corrido 10 km na USP e 11 um dia desses no Parque Ibirapuera, fui para uma prova de 9 km achando que não seria tão dolorido.

Escolhi essa prova única e exclusivamente pelo trajeto, 17a Corrida do Centro Histórico tem esse apelo turístico e afetivo com a cidade, pelo fato de passar por cartões postais de Sampa como o Teatro Municipal, Vale do Anhangabaú, Pateo do Collegio e Viaduto do Chá. Um jeito diferente de passear, correr e observar as coisas ao seu redor.

Mapa da corrida pelo Nike+

Fui, mesmo com Felipe viajando, a preguiça tomando conta do corpo e a impossibilidade de ver Marílson, Paulo Roberto e Franck Caldeira na mais tradicional corrida dos jogos olímpicos que aconteceria no mesmo horário. Na concentração para a largada na Avenida Líbero Badaró o inusitado acontece: um senhor, entre 65 e 69 anos (pois essa é a faixa etária para fins de classificação na prova), puxou conversa comigo. Perguntou se eu já tinha feito aquela corrida? Há quanto tempo eu praticava esse esporte? Em quanto tempo eu pretendia fazer a prova? Me falou da São Silvestre, dos seus 20 anos como corredor, do tempo que costuma fazer em 10km, das suas 300 medalhas e inúmeros troféus e assim foi a conversa até que ele disse que me acompanharia um pedaço da prova e depois seguiria no ritmo dele, que no caso era bem mais rápido do que o meu.

Sério, porque eu resolvi acompanhar o Sr. Oswaldo? Ou porque o Seu Oswaldo resolveu me acompanhar?

Ele já tinha o percurso “de cor e salteado” (existe essa expressão em SP?) e foi correndo e eu rapidamente me esbaforindo trajeto a frente. Primeira bobagem corri com o iphone no bolso e não com o reloginho que marca meu ritmo, de forma que perdi a referência da minha passada, segunda bobagem acreditar que 9km para quem já correu 11 km é menos (pode até ser menos), mas ainda é bastante para tentar arriscar sair correndo com um senhorzinho atlético, desconhecido com pinta de quem corre muito em todas as provas que vê pela frente. Eu fui com ele ou ele comigo (!) todo o trajeto e quando em pensei em desacelerar forte ou até mesmo caminhar Seu Osvaldo estava lá como meu personal pacer para impedir minha frustração pós prova (que é só nessa hora que a frustração vem!). Ele me dizia: – Menina, só tem mais essa subidinha, depois vem uma decida ai você aproveita para descansar braços e pernas, depois vem mais uma parte plana… ah, tá vendo aquele pessoal ali (e apontava para o outro lado da avenida) ele estão indo lá na frente, vão correr até o fim da rua e fazer a volta, daqui a pouco a gente está ali.

Uma hora, ou duas eu até disse pra ele: – Seu Oswaldo, corra no seu ritmo que eu vou diminuir um pouquinho pra recuperar o fôlego. E Seu Oswaldo como corredor doidinho que é, ao invés de acelerar e terminar a prova dentro do seu planejamento, simplesmente desacelerou me deu apoio moral e correu comigo independente do seu tempo. Quando as pernas começaram a latejar e a cabeça começou a se desconcentrar o primeiro pensamento derrotista que me veio foi sobre a Maratona. Isso mesmo, a Maratona, prova que estava acontecendo naquele mesmo momento nas Olimpíadas em Londres, com início 1 hora antes da minha largada (7 da manhã horário de Brasília) e já estava no meio do trajeto dos extenuantes 42.195 metros. Pensei: Nem a pau vou correr uma maratona, tô fora, pra que isso, deus me livre, 9 já são bem cansativos, nunca vou conseguir correr 42, coitado do Marilson que começou a correr a uma hora e meia atrás e ainda está correndo, eu vou terminar antes dele, vou ganhar uma medalha que ele não tem garantida e estou achando difícil. Pára! Chega de pensamento negativo!

Mais uma subida, mais uma decida, mais uma curva pra cá, mais uma pra lá… Água na garganta, punhos e nuca, sobre, desce, pensa em desistir, desiste da maratona, desiste da São Silvestre, desiste de tudo e pensa na estação de metrô mais próxima. Placa de 8 km, sorriso contente do Seu Oswaldo dizendo “só faltam 2 quilometros. Não, não, só falta 1, essa prova é de 9 quilometros né menina?” É só faltava um e esse um passou rápido.

E já na reta final quase na placa de “Faltam 400 metros” com minha garganta seca e as pernas doendo ele me diz: – Quando chegar naquela placa ali, você acelera menina, pra passar rápido pela chegada. (Tipo sprint final) Eu já cansada, sem querer saber do meu personal pacer, respondi meio emburrada: – Não consigo! Mas na hora me veio a cabeça Usain Bolt e Yohan Blake disputando 100 m, 200 m e revezamento de 400 m tão rápidos, tão esguios, tão cheios de energia… E pensei, meu deus o que eu fiz para merecer esse peso nas pernas?

Certificado da Corrida

O fato é que você sempre consegue dar um pouco mais de si mesmo, a não ser que seus músculos estejam entrando em colapso ou qualquer tragédia do mesmo nível.

Ele me olhou e falou: – Tá vendo aquela moça de camiseta lilás?! Você vai chegar antes dela né?

Vou e fui e cheguei. Agradeci ao Seu Oswaldo por ter praticamente me dado de presente sua corrida, seu apoio e sua divertida companhia cheia de histórias.

Eu e Seu Oswaldo!

Seu Oswaldo orgulhoso me mostrou sua classificação 3o da categoria dele nos 10km da Maratona de São Paulo, com desejáveis 48 minutos. Minhas poucas marcas nos 10km ficam próximas de 1 hora. Eu imaginava fazer os 9 km em 55 minutos, mas graças ao Seu Oswaldo fiz em 50:37. Fiquei em 21 na minha faixa etária, 191 classificação por sexo e 1916 da classificação geral. Ele foi ver as filhas, pois era dia dos pais e eu voltei para casa de metrô com minha medalha pendurada no pescoço pensando que deveria ter agradecido também pela água que ele me perguntou se queria que pegasse em um posto de hidratação; por ter trocado de lado comigo em uma rua cujo desnível era grande sob o cuidado de eu não ter uma lesão; de me alertar sobre o perigo de tropeçar na sinalização de asfalto como fizeram várias pessoas nessa corrida; por me sugerir fazer as curvas bem próximas ao meio fio para ajudar a embalar a corrida; a sempre acelerar para ultrapassar pessoas que estão atravancando o caminho buscando assim espaços maiores entre corredores do mesmo ritmo; por ter falado com entusiasmo sobre como estávamos muito mais ultrapassando pessoas do que sendo ultrapassados; por ter falado sempre com tanta certeza da minha participação na São Silvestre dizendo “quando você estiver correndo a São Silvestre vai passar por aqui! Olha ali é o começo da subida da Brigadeiro, ali tem que diminuir o ritmo, respirar e manter a concentração’; por ter saído da Praia Grande às 5 horas da manhã sozinho para correr no Centro Histórico porque corre a muito tempo com aquela “turma” ali.

Definitivamente cabe muita coisa em 50 minutos de corrida! A São Silvestre e a Maratona certamente estão ai no meio.