Livro: Segunda sem carne

por Sal e Sol

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Será que eu contei aqui que durante um tempo da adolescência fui vegetariana? Acho que não né?! Na verdade eu ainda não sei se gosto ou não gosto de carne, mas o fato é que além dessa minha indecisão outras questões que eu não classificava com ambientaise sim sentimentais motivaram a mudança na minha dieta. Lembro quando ainda criança mastigava interminavelmente pedaços de bife e não conseguia desfazê-los a ponto de conseguir engolir, o que fazia com que eu mastigasse interminavelmente e depois cuspisse fora aquela carne com péssimo aspecto e ainda dura.

Primeiro fato, na minha infância nunca ouvi falar em ponto da carne. O que me leva a crer que tudo era cozido até virar o que hoje eu chamo de sola de sapato. Ruminar aquela carne dura e não conseguir esfacelar o suficiente me levava a crer que na evolução do homem existia algo de errado com os meus dentes. E minha mãe sempre me dava cenouras inteiras para eu comer e deixar os dentes fortes, além dos 40 sacos de leite por mês que eu costumava consumir para ter bastante cálcio na dieta uma vez que só mamei no peito por 11 dias.

O segundo fato é que eu tinha “pena” dos animais. Não me pergunte porque eu tinha pena das vacas e bois, mas os peixes nãoestavam no meu hall da fama dos bichinhos a serem protegidos pela minha nova dieta. De forma que fiquei um tempo sem a chamada carne vermelha, mas depois terminei cortando fora as aves e por fim os peixes e frutos do mar. Sobraram os ovos e leites naquela que eu chamava com orgulho de ovolactovegetariana.

O terceiro fato é eu não entendia de nada de questões ambientais, cadeia produtora de alimentos, gastronomia, técnicas de cocção e cortes ou, até mesmo, de bom senso quando se trata de consumo. Comida para comer era o que estava no prato feito pela minha mãe, minha vó ou por mim mesma com os ingredientes disponíveis na despensa.

Mas eu fui firme, bati o pé e disse que não ia mais comer carne e parei gradativamente da vermelha para a branca para os seres aquáticos e não fui me inteirar o que representaria essa exclusão em termos de nutrientes. Resultado? Engordei. Não tenho certeza se também tem a coincidência com os anos de colegial e a proximidade com o vestibular mais engordei uns bons 7 quilos.

Daí depois de alguns anos com essa dieta a base de carboidratos e sem nenhum rigor na distribuição de nutrientes ao longo do dia, subitamente, eu resolvi parar. E voltei gradativamente da forma como parei, primeiro peixes e frutos do mar, aves e por fim carne bovina. Resultado? Emagreci 8 quilos. Mais uma vez não fui a nenhum médico ou nutricionista para saber o que aconteceu e estava acontecendo com o meu corpo, nem li sobre os impactos do meu retorno a uma alimentação a base de qualquer coisa.

Hoje, um pouco mais velha, já li bastante sobre a função dos alimentos e seu comportamento dentro do corpo, li sobre dietas diferentes, li sobre gastronomia e fui estudar para aprender a cozinhar para mim mesma, li sobre produção de carnes (sejam vermelhas, brancas, rosas, verdes…), li sobre orgânicos, li sobre um monte de coisas e escolhi o “caminho do meio”. Caminho que me é possível seguir. Aqui em casa tentamos ao máximo comprar alimentos orgânicos, apesar do preço ser bem mais alto se comparado com os alimentos convencionais, tento produzir alguns alimentos em casa como iogurte, pães, queijos e agora geléias, ketchups e conservas, e sem muito esforço também passo bem sem carne no meu prato, mas também sem excesso de carboidratos. Verduras, legumes, fungos, brotos, ovos, leite e cereais são recorrentes nos nossos pratos.

Agora que não posso consumir carne mal passada, por causa da gravidez, o consumo de carne vermelha foi reduzido drasticamente para mim, pois sola de sapato eu não como. Não penso em me tornar vegetariana, de qualquer tipo que seja, hoje em dia. Mas sei do impacto que tem o consumo “excessivo” (isso é muito pessoal eu confesso) de carne hoje em dia. Na verdade do consumoexcessivo de qualquer coisa. Não apenas para o corpo, mas para o mundo. E assim algumas alternativas acabam surgindo e uma delas e a redução de apenas um dia de consumo de carne na dieta. A campanha intitulada Meat Free Monday propõe uma coisa tão simples e que se pensado em uma escala global promove um impacto enorme.

O livro com título em português “Segunda sem Carne” de Mary, Stella e Paul McCartney é um compêndio de receitas para 52 dias sem carne, do café da manhã até o jantar. Eu poderia comer o que ali está descrito todos os dias, pois, além de lindas fotos, as receitas são muito convidativas. O marido ficou animado quando eu lhe disse que esse livro já está integrando no biblioteca, mas me lembrou que no final das contas devemos ter mais do que um ou dois dias sem carne na semana.

 

O bom do livro é que além de alertar para o assunto e incentivar a redução, mesmo que mínima, ajuda a produzir alimentos cheios de sabor, nutrientes e vida para o dia a dia. Sem dúvida irei combinar algumas receitas dali com carnes, mas também tentarei fazer desses cardápios guias que me mantenham na cozinha e pensando na alimentação como um projeto a longo prazo, exercitando a criatividade, a organização e a disciplina.

E vou continuar achando que cada um sabe o que é melhor pra si, mas tem que ficar esperto para ver até onde esse “si” invade o espaço do “outro”.

Alguns dados interessantes da apresentação do livro:

“Além de emitir gases do efeito estufa na atmosfera, os animais também consomem expressiva quantidade de água. Para produzir um hambúrguer de 147 gr são necessários 2.400 litros de água, o que equivale a um banho de 4 horas. 

“Um estudo de 2010 do Oxford University Department of Public Health, encomendado pelos Friends of the Earth, concluiu que limitar o consumo de carne a 3 vezes por semana evitaria anualmente 31 mil mortes por doenças cardíacas, 9 mil por câncer e 5 mil por enfarte. Com isso, a despesa anual do NHS (National Health Service) inglês com tratamentos de saúde poderia cair para menos de 1,2 bilhão de libras.”

“Já foi estimado que se a pesa intensiva não se reduzir, já em 2048 não teremos mais peixes”

Além de ser mais econômico uma vez que carne é muito mais caro do que legumes, frutas e verduras. Não custa tentar mudar um pouco a rotina e experimentar coisas novas.

Fica a dica!