sal e sol

Tag: Correr

O dia (doido) do meu troféu

Sabe aquela criança que ralou o joelho uma única vez e resolveu não se aventurar tanto na bicicleta? Sabe aquela criança que nunca subiu em um muro, mesmo que ele tivesse 1 metro de altura? Sabe aquela criança que ouviu falar em caramujo e não sabe onde e tem medo de tomar banho de rio até hoje? Sabe? Sabe! Tipo eu, essa aqui que vos fala… A pior aventureira de todos os tempos, eu. Mas a vida dá voltas e encontrei o Felipe-noivo-coach-amigo-tipo-tudo, que antes de me conhecer tinha dado várias voltas no mundo da Corrida de Aventura (leia-se corrida+ciclismo+remo+um monte de coisa no meio do mato com uma lanterna, uma corda, um mapa, uma barrinha de cereais e nenhum medo de se perder e virar o novo Naufrágo). Pois é, ele adora mato e cachoeiras e trilhas e o que tiver relação com isso e eu vim da praia (tipo do Nordeste), caipirinha, guarda-sol, mar a 40 graus, transparente de ver o pé pra não ter risco de cruzar com um “caramujo do mar”.

Ele falava: “correr é uma delícia, mas correr em trilha é bem mais legal”. Quanto a isso ainda não tenho muita certeza, pois gosto de correr no asfalto, de ter a sensação de correr na cidade, o lugar que a gente vive, passar pelos lugares que você passa diariamente, mas de um jeito diferente. Saber que consigo correr da minha casa até um lugar que antes eu só conseguiria chegar de carro ou ônibus, me traz uma sensação de liberdade (sério!) Um dia desses, mesmo, foi a virada esportiva em São Paulo, e como o coach estava com o pé meio machucado tive que correr sozinha, sai correndo de casa e fui até o Palestra Itália (Estádio do Palmeiras) pela avenida Sumaré e voltei. Achei incrível isso de estar correndo na contra mão da avenida, passar por baixo do metrô, observar atentamente tudo aquilo que geralmente vejo a 60km/h. Caiu até uma lagriminha… sem comentários.

Enfim, mas voltando a trilha, eu e o coach começamos a correr no parque Alfredo Volpi (que fica no Morumbi) nos fins de semana que ficamos em Sampa, no começo eu corria olhando atentamente para o chão, morrendo de medo de tropeçar, atolar na lama, me arranhar em um arbusto ou torcer o pé por causa do terreno irregular. O tempo foi passando e até comecei a achar legal, de forma que começamos a correr em uma outra trilha no interior, com subidas, descidas e poças, meus tênis voltavam para casa laranjas e até achei bonito. Estava me sentindo a maior aventureira (uma aventureira light, mas aventureira mesmo assim). Foi então que o coach resolveu fazer uma corrida de trilha em Campos do Jordão, chamada Mountain Do, para ele retornar as provas de corrida e eu experimentar uma corrida diferente. Lá fomos nós, eu, o coach e, claro, o Nico para Campos. Fiz a inscrição nos 4km e Felipe nos 9km, pois tive medo da trilha em si, de não gostar e querer voltar pra o asfalto, mas estar longe demais. O coach estava com uma dor no tornozelo há uma semana e terminou não conseguindo concluir a prova para não machucar ainda mais o machucado dele. Eu fui animada, porém receosa nos meus 4km. A prova tinha uma subida gigantesca logo no começo, mas ainda em asfalto, e depois uma sinalização que indicava o percurso que eu me propus a fazer.

Foi nesse momento que entrei sozinha da trilha e meu coração disparou, pois antes da minha primeira corrida (Circuito Vênus) eu tinha verdadeiro pânico de me perder, de não saber o trajeto e me atrasar demais, coisa impossível de acontecer em uma corrida com 5 mil mulheres, na qual você larga no meio de uma multidão e chegará pelo menos em 150a colocada, se tiver sorte e estiver treinando duro. Dessa vez foi diferente, o rapaz da organização gritava: “4km por aqui!! 4km por aqui!” e indicava a entrada da trilha. Sério, eu juro que não acreditei que ninguem-zinho estivesse entrando ali, pois é verdade que a grande maioria dos corredores estava ali para correr 9 ou 18km, mas eu não era a única inscrita para os 4km. Onde estavam eles? Enfim, lá fui eu, sozinha na trilha pela primeira vez na vida. Pensei com meu botões ou eu sou a última ou estou entre as primeiras a entrar aqui, e para a minha surpresa eu era uma das primeiras a entrar na trilha. Sai correndo feito uma maluca, parecia uma lebre fugindo de alguns dentes enormes, juro que nem vi se as árvores eram grandes ou pequenas, se estavam secas ou floridas, se era uma mata grande ou um pequeno jardim, apenas corri, feito uma doida.

Até que encontrei uma moça caminhando lá dentro, passei correndo por ela e depois escutei o barulho de dois rapazes correndo atrás de mim. Mas não deixei de correr um minuto, o que me deixa muito feliz, afinal estava ali para isso. Eles passaram por mim em um momento que tive que pular com toda a minha destreza de criança que escalou vários muros, mas segui sem um arranhão até o fim da trilha, que no caso era uma escadaria que caia em uma avenida e já chegava a praça central de Campos. Foi aí que me dei conta do que estava, de fato, acontecendo. Eu estava, de verdade, entre os primeiros e entre as primeiras também. Não consigo esquecer do guarda-de-trânsito-número-um que parou todos os carros para a maluca aqui correr até a linha de chegada, nem do guarda-número-dois que pulando e sorrindo me disse: “é por ali!!!” por que eu tenho certeza de que minha cara de “estou-perdida-pois-não-tenho-senso-de-direção-e-não-tenho-cinco-mil-mulheres-na-minha-frente” estava transbordando naquela hora.

E ai corri ainda mais, o mais rápido que pude, foi quando uma simpática moça da organização com um rádio em mãos sorriu para mim e falou “quem está chegando é a Lua (meu nome, escrito em meu número de peito dizia)”!! E me falou “Parabéns!!!”. Sério, eu não acreditei. Não acreditei, mesmo, de verdade. Pensei: ela deve estar dando parabéns para os primeiros 200 que passarem por aqui, ou até quando ela estiver com paciência para isso. Eu não podia estar chegando entre os primeiros colocados. Simplesmente, impossível. Na reta final da linha de chegada escutei o locutor “Lá vem ela, toda sorridente!! Maquininha, maquininha!!!!”

Foto Michelle Soares

Pára tudo! Esse povo tá louco, ou as pessoas se perderam na trilha, ou aconteceu a minha grande sorte de ganhar na mega sena, mas no caso sem ganhar os milhões! Cheguei em 4o lugar feminino geral! Pausa para o meu queixo caído, por que até hoje eu ainda não acredito. Foi um bom começo nas trilhas, um belo incentivo para continuar e a maior certeza de que o meu coach é o melhor do mundo. Ganhei o troféu de 4o lugar e de ex-sedentária mais animada do Brasil! Rááááá… quem diria, hein?!

4o Lugar Feminino Geral com Tempo líquido: 00:22:22 e Tempo Bruto: 00:22:41

Ritmo:05:35

Agora eu tenho vários heróis da trilha, mas o meu Coach estará sempre em primeiro lugar!

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Emil Zatopek, o Cara!

A capa do livro e o Emil fazendo caras e bocas, correndo

Pois eu disse que iria escrever sobre o livro “Correr”, de Jean Echenoz, e aqui estou eu escrevendo sobre o corredor mais incrível que já existiu: Emil Zatopek.

Emil Zatopek

Esse é, definitivamente, O Cara! Emil é de Praga, nasceu em 1922 e começou a correr quase que por obrigação. Daí pra ele virar um dos maiores corredores da história, foi um pulo. Ele conseguiu a façanha de ganhar ouro nos 5.000, 10.000 e na maratona em uma mesma Olimpíada, a de Helsinque, em 1952. Além dos muitos recordes nacionais e mundiais que conseguiu bater, correu e venceu a São Silvestre, em 1953, sob aplausos calorosos brasileiros.

Entretanto, Zatopek viveu o auge da sua carreira como corredor em uma época difícil na Tchecoslováquia, sendo perseguido pelo regime comunista que fez de tudo para acabar com a sua história.

“A locomotiva” como era chamado é um exemplo para qualquer corredor. Vê-lo correr é um prazer e um estímulo indispensável! E não faltam vídeos no youtube:

Mas melhor do que eu ficar falando aqui, é ler o livro escrito belissimamente por esse escritor premiado, que saiu pela Editora Alfaguara, em 2010.

Nascida para ler e para correr: Um post sobre livros, corrida e tecnologia

livros sobre correr

Eu sempre fui “cedê-efe” demais desde o dia que nasci. Sempre achei que o conhecimento estava nos livros, ainda porque fiz muita pesquisa pra escola nas Enciclopédias e passei anos sem nunca ter visto a cara de muitos cantores que curtia porque não retrato deles tinha na encartes dos lps e cds. Foi só um dia desses, há uns dois anos atrás, que atentei para o fato de que poderia ver todos eles pelo google images. Fantástico, né?!

Enfim, eu acho que inventaram um jeito de viciar a gente nessa coisas de wikipédia e google e tudo o mais, pois depois que inventaram o iphone, e depois que eu finalmente pude ter o meu próprio i-tudo tenho aquele prazer-imenso-da-recompensa-imediata-do-conhecimento-instantâneo que só a internet pode proporcionar. Mas os livros, esses nunca me largaram ou largarão. Tenho certeza. Neles que a gente encontra objetos esquecidos entre folhas amareladas, cheirinho de novo, de velho, de tinta, de coisa que o iphone nunca vai substituir. Nem o ipad, nem imac, nem o inada. Pelo menos acho que não, pois dizem que o Jobs já está na cloud com Michael, Ayrton Senna e Ral Seixas há um tempo. Inclusive um que foi fazer parte da turma chama-se Micah True ou Caballo Blanco. Esse cara que eu pelo menos nunca tinha ouvido falar é o herói do livro “Nascido para Correr”, de Christopher Mc Dougall. Pausa para um comentário: Eu falei que sempre fui cedê-efe e que o conhecimento para mim vive agrupado em bloquinhos chamados livros, né? Mas também acredito no pensamento complexo e no Edgar Morin. Mas, voltanto, quando comecei a estudar fotografia, li (e ainda leio) um monte desses bloquinhos a respeito da dona moça, depois comecei a ler alguns (que continuo lendo até hoje) de gastronomia, ai veio a corrida, que não seria o patinho feio da turma, concordam?

O primeiro que li sobre o assunto foi o do meu “mestre espiritual” Haruki Murakami, “Do que eu falo quando eu falo de corrida”, que saiu pela Editora Alfaguara e me fez sair de casa, de fato, para correr. Definitivamente Murakami está no topo da lista, junto com Felipe e Nico que me tiram da cama as 6 da manhã e me fazem calçar o tênis mesmo que os meus olhos ainda não estejam completamente abertos. Sobre Murakami, Felipe, Nico e sobre começar a correr falei aqui e aqui.

Segui desse para um muito gostoso e rápido de ler o “Maratonando”, de Rodolfo Lucena (Ed. Record) que conta suas aventuras correndo provas de longa pelos 5 continentes. A ele eu agradeço o sonho que não me abandona um dia sequer, de desbravar cidades, conhecer pessoas, aprender histórias, munida apenas de um par de pisantes, shorts, top e disposição (no caso do Rodolfo o top não é necessário, em contrapartida ele tem a barba que sempre o acompanha). Um dia, querido Rodolfo, vou te encontrar correndo por aí e vou agradecer pelos relatos divididos, e por me fazer pensar que eu também sou capaz de entrar correndo em estádios, viver momentos mágicos em montanhas e guardar medalhas como se fossem exatamente o que elas são: medalhas, de vitória por ter a coragem e a vontade de correr. Dele ainda vou comprar o “Mais Corrida – Pensamentos no Asfalto” e o The Marathon Maniacs que tem um relato desse figura que também é colunista da Folha Online, no blog + Corrida.

Daí, lendo e fuçando revistas, blogs e coisas do gênero que ouvi falar do Nascido para Correr, e embarquei nele por dias, mudei minha visão sobre corrida, pisantes, distância e objetivos. Esse livro fala de pessoas que correr muito, correr pra valer, correm ultras. Correr ultra significa correr mais de 42.195 metros. 42 km é quilometro pra chuchu gente. Esse livro é tão mágico que pensei: “isso é ficção, certeza!” Aí veio o Google (tipo conhecimento multimídia, hahaha dos livros para a internet e para os livros de novo) e me disse que não era ficção, não. Cada nome de corredor que coloquei no google apareceu um sujeito ou sujeita referente trajando roupas esportivas e correndo como malucos em situações diversas. Era tudo verdade, pessoas que correm 120, 140, 160 quilometros. Como assim? Pois é correm e pra piorar (ou melhorar) tem alguns que correm de sandálias e até descalços. Juro, fiquei maluca com essa história. E ai o autor conta tudo bem detalhadamente da tribo de índios tarahumaras, conhecidos como os maiores corredores do planeta, a história da nike, dos tênis, das lesões, das corridas mais extraordinárias do mundo e das pessoas que são meus heróis. Caballo criou um mundo em torno dessas idéias e infelizmente morreu enquanto eu ainda estava lendo o livro, nas últimas páginas desse relato genial sobre correr e sobre nossa condição histórico-biológica-inata de corredores. Massa, né?

Enfim, hoje vi um vídeo bonito-bonito-mesmo de um fotógrafo que documentou a corrida idealizada por Caballo Blanco que aconteceu esse ano, 2012, a Cooper Canyon Ultramarathon 80 km, e que me deixou feliz por que na minha imaginação ela era linda exatamente assim. Para ver o vídeo clique AQUI e para ver fotos desse e de outros trabalhos do fotógrafo Luca Kleve-Rudd clique AQUI.

Para saber mais sobre o Chris McDougall clique AQUI e também veja o vídeo dele falando no TEDx Penn Quarter AQUI.

Pra fechar com chave de ouro um vídeo um dos meus novos ídolos Scott Jurek falando sobre um monte disso tudo:

Mas como uma coisa leva a outra, o conhecimento e eu tenho a sorte de conseguir ler até três livros ao mesmo tempo (contanto que sejam razoavelmente diferentes), estou dividindo tempo livre dos dias e das noites entre Murakami, Jonathan Safran Foer e o recém chegado na família dos livros sobre corrida “Correr”, que conta a história de corredor figura chamado Emil Zatopek, mas isso já é história para outro post.