sal e sol

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Sweet Sexta: Tarte Tatin de Banana e tudo de cabeça pra baixo

tarte de banana

Pequena eu pensava: se a gente está de cabeça para cima, os japoneses estão de cabeça pra baixo?

Hoje eu entendo que além dos japoneses muitas coisas ficam de cabeça pra baixo e a gente nem se dá conta. Desde que fiquei grávida eu me sinto um pouco assim. Além de excessivamente atrapalhada, fico pensando no que vai acontecer daqui umas semanas ou um minuto, já que com 37 semanas Olívia pode chegar a qualquer momento.

A gente fica mais mexido mesmo, não tem jeito. Por mais durona que você tente ser tem hormônio demais circulando pela corpo, te transformando em alguém que você nunca mais vai deixar de ser, tipo mãe. Eu confesso que ainda não me sinto mãe, mesmo com a barriga, o ultrassom, o quarto montado, as roupas lavadas e passadas, a mala da maternidade pronta e o freezer cheio de comida. Ser mãe é outra história. Só quando nascer a gente descobre. Tipo loteria mesmo. Eu, como qualquer outra mulher grávida no mundo (pelo menos é o que eu imagino), quero ser uma boa mãe, mas o que é esse ser “boa”? Na minha condição de filha minha mãe foi uma boa mãe. Na minha condição de futura mãe sempre acho que podemos melhorar aqui e ali, e digo isso por mim, não pela minha mãe. A gente tenta ser mais compreensível, tenta cuidar mais da própria vida, do próprio umbigo, mas tenta ser menos egoísta, mais cuidadoso e carinhoso, tenta ajudar mais e ter mais paciência. Entre outras mil coisas que a gente nem se dá conta que está fazendo.

De umas semanas pra cá descobri que a Olívia já está de cabeça pra baixo. Semanas de cabeça pra baixo, esperando a hora de nascer. Quanta paciência, né?! Eu fiquei preocupada, perguntei a médica se tanto tempo nessa posição não faria mal, ela disse que ninguém nunca ficou traumatizado por ficar de cabeça pra baixo na barriga da mãe e Olívia não seria a primeira. Bebês não estão nem aí se estão assim ou assado dentro do líquido amniótico e útero quentinho da mãe. Mas eu estou aqui de cabeça pra cima e besta com a sensação de que tudo está de cabeça para baixo ou ficará em alguns dias, semanas ou minutos, afinal nunca se sabe quando ela vai resolver, de fato, chegar. No fim as coisas se acertam e como o marido diz em alguns dias com a Olívia em casa vai parecer que ela sempre esteve conosco, sem dramas, sem medos, sem grandes revoluções, às vezes de ponta cabeça às vezes de cabeça pra cima.

E nessa gangorra de emoções e com a sensação de que o tempo está se “esgotando” eu fiquei mais corajosa e nem eu acredito nas coisas que ando fazendo. Mesmo com o marido dizendo que vou conseguir cozinhar, no fundo eu tenho a sensação de que é agora ou nunca, de que preciso aprender a fazer algumas coisas hoje pois depois não terei tempo, e sei que é pura bobagem, mas mesmo assim faço e ocupo a cabeça e canso a coluna com horas a fio na cozinha, fazendo pães, doces, limpando, guardando, lendo, estudando.

Minha primeira torta invertida foi assim. Minha Tarte de Banana. Uma versão da Tarte Tatin. Uma torta de cabeça pra baixo, mas que nunca poderá ser de cabeça pra cima, se não não é o que é.

Uma forma com bordas arrendodadas ajudaria? Ajudaria. Banana um pouco mais maduras ajudariam? Ajudariam. Um forno que mantem a temperatura que as receitas indicam e você necessita ajudaria? Opa, se ajudaria. Mas deixa de desculpa esfarrapada e faz. Se der errado deu. Não foi assim com as duas irmãs que acidentalmente inventaram a receita? Se desse certo sempre não teríamos tarte tatin. Se ficar bom, melhor. Isso é o que chamo de coragem na cozinha. O que é melhor tem um saco de 500 gr de farinha de trigo bem protegida ou uma ciabatta quentinha saindo do forno? Eu fico com a segunda opção, mesmo que demore 3, 4, 5 pacotes de farinha para ela chegar.

Ciabatta você não escapa…

Tarte Tatin de Bananas

(Jamie’s Food Revolution)

Para 6 pessoas:

  • 60 gr de manteiga sem sal
  • 150 gr de açúcar refinado
  • 4 bananas grandes
  • 1 laranja
  • Canela em pó para polvilhar

e também…

  • Farinha de trigo para polvilhar
  • 250 gr de massa folhada (que eu recomendo comprar pronta) ou a Patê Sucrée

Opcional: Crème Fraîche

Opcional: Sorvete de baunilha para servir

Caramelizar as bananas: Pré-aqueça o forno a 180ºC. Em uma assadeira funda de aproximadamente 19x 30 cm derreta a manteiga em fogo baixo, eu fiz direto na minha frigideira, mas ela pode ir ao forno, pois o cabo é de aço inox. Quando a manteiga tiver derretido acrescente o açúcar e continue cozinhando por alguns minutos, mexendo de vez em quando, até obter um caramelo dourado. Cuidado para não queimar a sua calda. Enquanto isso descasque e corte as bananas no sentido do comprimento e coloque-as no açúcar caramelizado, com cuidado para não se queimar. Tire do fogo, polvilhe canela e raspas da casca da laranja. Deixe esfriar um pouco antes de esticar a sua massa folhada por cima ou sua pate sucrée. Acomode bem a massa sobre as bananas empurrando um pouco entre os espaços (coisa que eu não fiz, então as bananas ficaram um pouco soltas). Faça alguns furos com um garfo para permitir a saída de vapor e ponha a assadeira na prateleira de cima do forno pré-aquecido por 25-30 minutos, ou até dourar.

Para desenformar seja cuidadoso, pois a tarte deverá estar quente. Não precisar estar borbulhando, mas ainda deverá estar quente pois o caramelo endurece ao esfriar. Vire-a de uma só vez em uma travessa ou prato e sirva morna com uma bola de sorvete por cima ou o creme fraîche.

Patê Sucrée (Massa para tortas doces) – rende 400 gr

(Le Cordon Bleu – Todas as Técnicas Culinárias)

  • 200 gr de farinha de trigo peneirada (peneirar deixa a massa mais oxigenada e por isso mais leve e crocante)
  • 1 col (chá) de sal
  • 100 gr de manteiga sem sal gelada, em cubos
  • 1 ovo ligeiramente batido com um garfo
  • 2 col. (chá) de água
  • 1 col. (sopa) de açúcar refinado

Misture a farinha, o sal e o açúcar. Junte a manteiga esfregando com os dedos. Ficará com aspecto de farofa úmida. Bem arenoso. Junte o ovo e a água o suficiente para dar liga. Deixe homogênea, mas não precisa sovar. Enrole em plástico filme e leve à geladeira por 30 minutos, pelo menos, isso evitará que ela encolha ao cozinhar e mantenha a manteiga firme.

Para abrir a massa, coloque-a sobre uma superfície ligeiramente enfarinhada e com a ajuda de um rolo abra-a 4 ou 5 cm de diâmetro a mais do que a sua torta/assadeira/frigideira.

Obs. 1: Massa Esfarelada: A Patê Sucrée e a Patê Brisée são as massas para uso em tortas, quiches, empadões. Ambas tem a mesma base e preparo, a única diferença entre elas é que a Patê Sucrée leva açúcar e se presta a preparações mais doces.

Obs. 2: Você pode congelar a massa esfarelada, enrolada em filme plástico. Outra opção é prepará-la com antecedência e deixá-la embrulhada na geladeira. Se estiver muito firme retire da geladeira 20 minutos antes de usar, para facilitar a abertura com o rolo.

Torta Rústica de Peras e muitas coisas ao mesmo tempo

torta deperas

Eu realmente me empenhei na cozinha esses dias. Estou me sentindo super bem apesar de já estar no último mês da gravidez. Acho que está acontecendo um misto de ansiedade pré parto e medinho do pós. Não sei como vai ser ter um bebê em casa e cuidar dele o dia todo e todos os dias, alimentando-o e mantendo a casa em ordem. Por isso entrei na cozinha como se estivesse indo para a guerra. E o que chamo de “comida a longo prazo” continua em produção, mas isso é assunto para outro post.

A motivação essa semana foi a volta do marido. Ele estava em Berlim para a penúltima viagem do mestrado e eu pensei um monte sobre o que fazer para a sua volta. Resultado, iogurte caseiro (postarei receitinha na segunda), a geléia de ameixa já publicada por aqui, um pão para o seu café da manhã (a Fougasse do Bertinet que postarei na quinta), uma torta de carne tão solicitada pelo marido, cuja massa ficou muito boa, mas confundi a receita do recheio de uma torta maravilhosa do Jamie Oliver com uma bem “mais ou menos” do Olivier (que ficou meio “blergh!”) e de sobremesa uma torta rústica de peras que vi em um blog lindo de morrer que só tem receitas e fotos lindas.

Resumindo, foi bom, geléia, iogurte, fougasse, Steak and Ale Pie, Torta Rústica de Peras e ainda caldo de frango, um caldo de carne que quer ser um demi-glace e a promessa de uma vida feliz ao lado do meu novo equipamento que repousa calmamente no freezer, um Ice Cream Make Attachment para a minha Kitchen Aid. Uhull!!

E vamos a receita da Torta Rústica de Peras, porque é sensacional e o blog do moço é incrível. E eu acho que já tenho uma lista de coisas que quero fazer de lá e um jeito mais confiante de olhar para tortas e não ter medo que elas se desmanchem como manteiga derretida no forno. O melhor é que foi inevitável lembrar do filme “Garçonete” e das tortas com nomes incríveis que ela fazia para cada sentimento em relação a sua vida. Essa torta rústica de peras que o Richie disse ser para os dias preguiçosos, eu diria ser para o dias corajosos e de saudade. Minha primeira torta que nem ficou torta, ficou rústica!  =)

Torta Rústica de Peras (literalmente daqui)

Massa:

  • 1 e 1/3 xícaras de farinha de trigo [esse 1/3 substituí por farinha de amêndoas, mas não precisa];
  • 1 colher de chá de açúcar;
  • 1/4 da colher de chá de sal;
  • 1/2 xícara de manteiga gelada picada em cubinhos;
  • 3 colheres de sopa de creme de leite.

Recheio:

  • 1 xícara de açúcar [usei 2/3 de xícara – varia conforme a doçura das frutas e o seu paladar];
  • 2 colheres de sopa de amido de milho;
  • 1 colher de sopa de canela em pó;
  • 4 pêras [usei a comum, willians], descascadas e cortadas em fatias não muito finas [mais ou menos meio centímetro de espessura;
  • 2 colheres de chá de extrato de baunilha.
  • 1 clara de ovo levemente batida, para pincelar;
  • Açúcar para polvilhar

Preparo da massa:

Em uma tigela misture a farinha, o açúcar e o sal. Junte os cubinhos de manteiga gelada e amasse com as pontas dos dedos, até formar uma farofa úmida. Adicione o creme de leite, uma colherada por vez, amassando somente o necessário para formar uma bola de massa. Achate essa bola, envolva em filme plástico e leve à geladeira por 20 minutos.

Enquanto isso, prepare o recheio:

Misture, em uma tigela grande, o açúcar, o amido e a canela. Junte as peras fatiadas e o extrato de baunilha e misture delicadamente com um garfo para envolver as fatias no açúcar sem despedaçá-las. 

Montagem:

Preaqueça o forno a 170 graus.

Com o rolo, abra a massa sobre o verso de uma assadeira retangular grande,  polvilhada de farinha, até conseguir um retângulo de uns 20 por 27 [você pode abrir a massa sobre uma superfície de trabalho enfarinhada e depois transferi-la para a fôrma, enrolando a massa no rolo, mas achei mais fácil abrir diretamente no fundo da fôrma].

Espalhe as fatias de pera sobre o centro da massa [enfileiradinhas ou ao léu, depende da sua paciência], deixando uma borda de 4cm ao longo das laterais. Dobre essas bordas sobre o recheio, pincele as bordas com a clara de ovo e polvilhe açúcar.

Leve ao forno por 20 minutos, até a massa dourar e o recheio borbulhar.

Sirva morna ou fria.”

(Do A Cozinha Coletiva de Richie do jeitinho que ele explicou, pois eu jamais conseguiria explicar melhor!)

Eu mesmo corajosa, ainda tive um medinho de deixar as peras secas demais e terminei assando a torta um pouco menos do que poderia. Ela poderia ter um bronze extra (como sempre…) para ter aquela cor do verão, mesmo sendo outono. De qualquer forma a massa estava cozida e crocante. Teria sido ótimo comê-la com sorvete, mas minha glicemia não permite tamanho exagero, é sempre bom lembrar!